ARMINDA FARIA: ELOGIO FÚNEBRE DO BUREAU POLÍTICO DO COMITÉ CENTRAL
Documento foi apresentado, 4ª feira (12), no Cemitério Alto das Cruzes, em Luanda, pelo camarada Roberto de Almeida, membro do Bureau Político do Comité Central, na presença de membros da direcção do Partido e familiares.
Luanda, 12 OUTUBRO 16 (4ªFEIRA) - CAMARADA HORÁCIO BRÁS DA SILVA, ESPOSO DA NOSSA FALECIDA CAMARADA ARMINDA FARIA,
QUERIDOS FAMILIARES DA MALOGRADA,
EXCELENTÍSSIMOS CAMARADAS MEMBROS DA DIRECÇAO CENTRAL E PROVINCIAL DO MPLA,
DIGNOS REPRESENTANTES DAS ENTIDADES ECLESIÁSTICAS,
ESTIMADOS REPRESENTANTES DAS AUTORIDADES TRADICIONAIS,
EXCELÊNCIAS,
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES,
Na história recente de Angola, inúmeras mulheres muito cedo tomaram consciência das injustiças reinantes na Angola colonizada e ousaram lutar por um país livre e soberano.
Uma destas destemidas mulheres, no caso Arminda Faria, de sua graça, traz hoje a este campo santo, familiares, companheiros e amigos, militantes do MPLA e das suas organizações sociais, para a derradeira homenagem.
Foi com pesar que a massa militante do MPLA, em particular as militantes da OMA, tomaram conhecimento, no dia 9 de Outubro de 2016, do passamento físico da Camarada ARMINDA CORREIA DE FARIA, nacionalista e ex-dirigente da Organização da Mulher Angolana (OMA), ocorrido, em Luanda, por doença.
A Camarada ARMINDA FARIA, que contava 96 anos de idade, era uma mulher destemida que cedo percebeu a injustiça e a opressão a que estava sujeito o povo angolano, na sua própria terra e que era necessário lutar para a independência do país.
Arminda Correia de Faria nasceu em Luanda, aos 6 de Novembro de 1919, filha de Jaime de Faria e de Guilhermina de Freitas, viveu os seus primeiros anos de vida no Lucala (Kuanza Norte), tendo vindo estudar em Luanda, em 1931.
Aluna exemplar, em 1945 fez o curso auxiliar de enfermagem e cinco anos depois o curso geral de enfermagem, no hospital dos Capuchos, em Lisboa, tendo-se posteriormente especializado em hemoterapia.
Devido o seu alto sentido humanista e amor ao próximo, exerceu com dedicação esta profissão durante muitos anos, preocupando-se continuamente com a sua superação, tendo exercido funções de realce ao longo da sua carreira de enfermeira graduada.
Estimados Camaradas,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
A partir de 1936, a camarada Arminda Faria desperta para as injustiças sociais do trabalho escravo. Trabalhando como enfermeira de cabeceira, o sofrimento humano suscita nela a vocação humanitária e de solidariedade.
Em 1947 toma consciência dos problemas nacionais e dá os primeiros passos em acções com Mário Pinto de Andrade e outros patriotas, com vista à emancipação do povo angolano.
Por volta de 1949/50, em Lisboa, faz os primeiros contactos com nacionalistas, como Agostinho Neto, Humberto Machado, Henrique Guerra, Azevedo Júnior e Mário Pinto de Andrade.
De 1952 a 1959 trabalha na clandestinidade com o padre Joaquim Pinto de Andrade, Cônego Manuel das Neves, Ilídio Machado, André Franco de Sousa, António Macedo, Higino Aires, José Maria dos Santos, Joaquim Monteiro (o Chuchudo) e Graças Benge.
Ingressa nas células clandestinas do Mia em 1956, com os camaradas Ilídio Machado e André Franco de Sousa. Em 1960, regressada de Paris, sob a orientação do padre Joaquim Pinto de Andrade e o Cônego Manuel das Neves e a colaboração de António Macedo e Graças Benge, organiza e desenvolve uma rede de apoio social aos presos políticos e seus familiares, a quem buscava empregos para as esposas e escolas para os filhos.
Este trabalho era feito com especial e importante apoio das irmãs alsacianas da Ordem de Santo Salvador, nomeadamente irmãs Santana, Shantel e Mónica. Sobre estas irmãs há a destacar o importante papel que desempenharam na salvação de vidas humanas na época mais dramática de 1961, sobretudo na prisão de S. Pedro da Barra.
Em 1960 é interrogada pela Polícia Militar colonial, acusada de ter organizado a fuga de Tomás Ferreira (um dos 1º comandantes do MPLA) aguardando julgamento em liberdade condicional. Participaram também na concretização da referida fuga os camaradas Madalena Monteiro, Dina Stela, Joaquim Monteiro (Chuchudo) e o Azevedo que o transportou para a primeira Região.
Em Janeiro de 1961 é detida pela PIDE, acusada de recolher e enviar documentação dita subversiva (mapas dos quartéis militares portugueses e posições das tropas, entre outros) para o Comité Director do MPLA no exílio. Com ela foram detidos o Chuchudo e o José Maria (do Ngola Ritmos).
Em 1961, na antiga 4ª esquadra (hoje Unidade Operativa de Luanda), assiste à repressão sangrenta contra os combatentes do 4 de Fevereiro que desencadearam o assalto às cadeias.
Em Março do mesmo ano é posta em liberdade, por falta de provas. Em 1963 inicia o apoio logístico à primeira Região Política Militar do MPLA, através dos camaradas Juca Valentim, Chuchudo e um alfaiate que cosia os calções para os guerrilheiros.
Em Março de 1965 é detida pela segunda vez pela Pide, em Lisboa, no Forte de Caxias, acusada de participar na transportação de explosivos e petardos de Lisboa para Luanda, destinados à guerrilha urbana.
Com ela foram também detidos Vitória de Almeida e Sousa, Lucas Teixeira, Aristides de Carvalho, Henrique Guerra e João Baptista.
Em 1966 é julgada no tribunal da Boa-Hora, depois de 14 meses de detenção, defendida pelo advogado português Victor Van Gorowius, sendo absolvida por falta de provas.
Em Novembro de 1966, de regresso a Luanda, retoma as actividades políticas na clandestinidade, com realce ao apoio logístico à primeira Região Política Militar, com os camaradas Manuel Pedro Pacavira, Tito Armando, dentre outros.
De 1967 à 1974 assegura o apoio material aos familiares dos presos políticos das cadeias de S. Paulo, Comarca e campos de concentração do Missombo, S. Nicolau e Tarrafal (Cabo Verde), graças ao apoio financeiro do empresário português progressista Jorge Costa e à prestimosa colaboração da Dra Maria do Carmo Medina, Diná Stela, Teresa Gama, Madalena Monteiro, Conceição Minerva, Luzia Fernandes, Lita Valentim, Mário Romão e outros.
Logo após o 25 de Abril integra-se no CAPA (Comité de Acção Política de Angola) criado com o fim de coordenar as acções dos militantes do MPLA da clandestinidade e materializar as orientações do Comité Director.
Perante a grande crise do MPLA com as fracções Chipenda e Revolta Activa, dirige duas cartas a Agostinho Neto e a Joaquim Pinto de Andrade, apelando-os para a unidade, em função dos superiores objectivos da luta de libertação nacional e do futuro do povo angolano.
Foi portador destas cartas, o camarada Manuel Pedro Pacavira. Este, de regresso, traz uma credencial do Camarada Presidente Agostinho Neto, que designava Arminda Faria como Coordenadora Nacional da OMA, para implantar esta organização nos centros urbanos.
Nesta actividade fez-se rodear das camaradas Geny Mangueira, Albina Assis, Helena Boavida, Teresa Cohen, Engrácia Cohen, Nené Cohen, Zita Mangueira, Irene Neto, Lena Correia Victor, Delfina Escórcio e muitas outras com as quais organizou o fundo de apoio aos ex-presos políticos, bem como as secções da OMA nos bairros de Luanda e outras províncias.
Em 1976 cessa as suas funções de responsável nacional da OMA, a seu pedido, para poder assegurar os Bancos de Sangue, de que era superintendente a nível nacional, devido à fuga massiva de quadros, inclusive do próprio director e único médico especialista no sector.
Camaradas,
Senhoras e Senhores,
Um enorme sentimento de pesar envolveu a sociedade angolana. Incrédulos, todos se recusavam a acreditar no infortúnio que privou Angola de uma das suas melhores filhas, cuja conduta irrepreensível, durante a luta de resistência ao colonialismo português a elevou ao nível dos Grandes e Ilustres patriotas que colocaram os interesses nacionais acima do seu bem -estar pessoal e se envolveram na luta, com o risco da própria vida, pelos nobres ideais que defendiam.
Em reconhecimento à sua prestimosa participação na luta que nos conduziu à Independência de Angola, a 11 de Novembro 1975, o Comité Provincial de Luanda do MPLA realizou, em 2009, um grandioso acto que homenageou esta Ilustre Camarada, que hoje acompanhamos à sua última morada.
De trato fácil, revelou inúmeras qualidades como a de verdadeira nacionalista e patriota em tempo inteiro, facto que orgulha as mulheres angolanas, em particular as enquadradas na OMA, organização que dirigiu com sabedoria e abnegação.
A malograda era casada com o Camarada Horácio Brás da Silva, Ministro do Trabalho do primeiro Governo de Angola Independente.
Neste momento de dor e de luto, inclinamo-nos perante a memória desta Ilustre Combatente da Pátria Angolana e, em nome dos militantes, simpatizantes e amigos do MPLA, endereçamos à família enlutada e à OMA os mais profundos sentimentos de pesar.
CAMARADA ARMINDA FARIA, PRESENTE!
QUE A SUA ALMA DESCANSE EM PAZ!
MPLA – COM O POVO, RUMO À VITÓRIA
PAZ, TRABALHO E LIBERDADE
A LUTA CONTINUA A VITÓRIA É CERTA.
Luanda, 12 de Outubro de 2016.
O SECRETARIADO DO BUREAU POLÍTICO
PortalMPLA/Sede Nacional do Partido