Deputado Boaventura Cardoso: Não queremos perder a angolanidade

Intervenção, nesta sexta-feira (20), em Luanda, do parlamentar do MPLA, no debate mensal da Assembleia Nacional de Angola, sobre o tema “O papel da família no resgate dos valores éticos, cívicos, culturais e morais”.

 

Luanda, 20 MAIO 16 (6ª FEIRA) – Intervenção, nesta sexta-feira (20), em Luanda, do parlamentar do MPLA camarada Boaventura Cardoso, no debate mensal da Assembleia Nacional de Angola, sobre o tema “O papel da família no resgate dos valores éticos, cívicos, culturais e morais”:

 “O tema deste debate remete-nos, necessariamente, para as graves consequências da guerra que assolou o país, durante quase três décadas.

De facto, em resultado disso, muitas famílias ficaram desestruturadas e desagregadas; aumentou exponencialmente o número de viúvas e de órfãos, bem como de desalojados e deslocados.

Muitas pessoas tiveram de abandonar precipitada e desordenadamente os seus locais de residência, incluindo crianças que até hoje, volvidos 14 anos desde o estabelecimento da paz, continuam sem o amparo dos seus progenitores, deambulando pelas ruas dos grandes centros urbanos.

Na maior parte dos casos, essas populações e comunidades foram compelidas a mudar-se dos seus lugares de origem (lugares de produção e de trocas, de organização política-social e de memória), para outros lugares, com tudo o que de negativo contém qualquer mudança que ocorra drasticamente, por um lado, mas também porque, por outro, nos lugares ou regiões de refúgio não encontraram os meios materiais, psicológicos ou outros, susceptíveis de apoiá-los a recomeçar nova vida.

A guerra destruidora de infra- estruturas económicas e sociais, de bens materiais, sociais e, sobretudo, de seres humanos, foi também a responsável pela aceleração da perda da identidade e dignidade humanas, evidenciadas por tais comunidades.

Em consequência de grandes movimentos migratórios para os centros urbanos, sem condições adequadas para abrigar tanta gente, acabou por agravar a situação de milhares de populações deslocadas, o que vale dizer das famílias já de si vulneráveis.

Aumentou o número de casais separados, de mães solteiras, da poligamia, de violência doméstica, da prostituição juvenil, de crianças de rua.

A pobreza e a miséria afectaram muitas largas centenas de famílias, tornando os seus membros permeáveis a práticas negativas, como o consumo excessivo de álcool, de drogas, agressões físicas de graves consequências, etc. Perderam-se, assim, muitos valores éticos, cívicos, culturais e morais.

O resgate dos valores éticos, cívicos, culturais e morais é todo um processo. Não é tarefa de se executar e de produzir resultados imediatos. Requere a participação e a perseverança de toda a sociedade, nomeadamente, das instituições públicas vocacionadas, das escolas e das universidades, dos órgãos de comunicação social e das igrejas.

O resgate de tais valores tem de ser assumido num contexto caracterizado pelo fenómeno da globalização, que induz modelos e comportamentos culturais estranhos aos nossos hábitos e costumes.

Os processos de globalização e de transformações sociais deles decorrentes, por um lado, criam as condições para um diálogo universal renovado entre as comunidades, mas, por outro, constituem, em alguns casos, uma ameaça de degradação e desaparecimento de muitas culturas.

Estamos hoje sob o impacto e a influência de uma cultura cosmopolita pós-moderna, alicerçado em poderosos meios de comunicação e telecomunicação que, para além de significar oportunidades de progresso, de poder renovar e reinventar novos valores contemporâneos, é um desafio, porque cria profundas assimetrias, uniformiza, homogeneíza, marginaliza e empobrece os valores das culturas ditas periféricas.

A análise dos fenómenos sociais não se compadece com interpretações simplistas do modo como os mesmos se manifestam, muito menos com operações de alquimia.

Não há nas sociedades, em geral, separação absoluta entre o novo e o velho, entre tradição e modernidade. O que existe é uma permanente interacção entre esses dois conceitos que, às vezes, nos aparecem tão profundamente metamorfoseados, que nos levam a confundir uma com outra.

Tradição e modernidade podem, num determinado contexto, tanto coexistirem em perfeita harmonia como rejeitarem-se mutuamente, buscando cada uma as suas formas próprias de sobrevivência.

Contrariamente ao que pode pensar-se, a tradição não é sinónimo de imobilismo. Se é certo que ela comporta, em si, uma função conservadora, portanto passiva, não é menos verdade que é só mantendo-se em actividade que ela pode manifestar ou expressar aquilo que já existiu, tendo, por isso, uma função activa.

Vale dizer, portanto, que também a tradição é dinâmica, passando mesmo por processos de criação e de recriação. É, aliás, mercê desse dinamismo que a tradição pode interagir com situações novas e ressurgir com novas alternativas.

A modernidade tende, em geral, a ocultar as referências ao passado, faz emergir o novo e o inédito, sobrevaloriza o efémero, em detrimento do permanente, massifica e banaliza, embora se deva reconhecer que ela não é capaz de abolir por completo os traços do tradicional.

De qualquer modo, o que importa reter desse constante dialogar entre a tradição e a modernidade é que não há, nem pode haver, sociedades completamente novas, homens inteiramente novos. Dessa permanente e inevitável interacção entre o velho e novo resulta a pluralidade e a diversidade da nossa memória colectiva.

Em Estocolmo, em 1998, numa Conferência sobre Políticas Culturais, foi dito “não podemos lutar contra a mundialização, mas podemos guiá-la e reduzir o seu impacto negativo. A mundialização não é um processo metafísico, mas um processo regido por forças económicas e tecnológicas”.

Ainda a propósito desta breve reflexão sobre os efeitos da globalização, recorremos, primeiro, a uma frase simples do grande escritor russo, Leão Tolstoi, que faleceu no distante ano de 1910, muito antes, portanto, da era da globalização. Dizia, então, o autor do mundialmente conhecido romance “Guerra e Paz”: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.

Depois, evocamos aqui uma passagem ilustríssima do Presidente de todos os angolanos, JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS, em 11/11/2005, quando dizia: “Nesta era da globalização, em que cada país é um mercado integrado num mercado global, em que a informação, os valores da cultura universal e as normas da civilização ocidental se disseminam sem fronteiras, quem não é capaz de administrar o seu mercado e preservar os valores da sua identidade, transformando-os em contributo ao processo global, fica sem expressão (...)”.

Dois pensamentos expressos com o mesmo sentido num intervalo de mais um século, em contextos económicos, históricos, culturais e sociais completamente diferentes. Devemos, pois, cuidar primeiro da nossa “aldeia”, para melhor nos inserirmos na “aldeia global” e podermos resistir aos seus efeitos nefastos.

No contexto actual e para sermos mais concretos, temos de reconhecer que carecemos de melhorar os conteúdos de certos programas de televisão que ferem, em grande medida, a sensibilidade e o modo de ser e de estar de muitas famílias. De igual modo, alguns programas de educação e ensino das nossas crianças e jovens.

Mas, é necessário envolver mais os pais e os encarregados de educação, porque há muitos programas de índole ruim a que todos temos acesso por via das antenas parabólicas e das agora cada vez mais actuantes redes sociais.

Podemos mesmo falar em “irradiação do cultural”, por esses meios, de modelos e comportamentos que conflituam com a vocação universalista da Cultura Nacional. Por outras palavras, na nossa “aldeia” temos portas e janelas abertas a tudo o que vem de fora, mas que é bom, a tudo o que são já conquistas da Humanidade, mas não queremos, por nada deste Mundo, perder a nossa identidade cultural, numa palavra, a angolanidade.

Impõe-se, hoje cada vez mais, o resgate dos valores éticos, cívicos, culturais e morais. Como e por onde começar?

O relatório que serviu de base à introdução deste debate está bastante claro: não só identifica as causas do problema, como avança com propostas concretas para a solução do mesmo.

Com a indispensável colaboração de instituições públicas vocacionadas, de parceiros sociais, nomeadamente das igrejas, o Executivo assumiu, com responsabilidade, os desafios que afectam o futuro das famílias angolanas, gizando, para o efeito, políticas públicas que visam “criar as condições económicas, sociais, culturais e políticas para que a família possa desempenhar a sua função nuclear na sociedade, como unidade social base, com respeito da sua identidade, unidade, autonomia e valores tradicionais”, como vem plasmado no Programa Nacional de Desenvolvimento 2013/2017.

“Numa sociedade marcada, durante várias décadas, pelo conflito armado e onde se verificou uma desagregação, sem precedentes, de famílias inteiras, a atenção à família e à sua valorização” constituem uma prioridade da acção política do MPLA.

Para além disso, para o nosso Partido, o povo, desde os primórdios, é e sempre será “o ponto de partida e de chegada” de toda a sua actividade, o que é uma premissa fundamental da sua existência, como Partido de Vanguarda.

Temos a plena certeza de que, sob a liderança clarividente do Presidente José Eduardo dos Santos, a luta pela valorização da Família Angolana e melhoria das suas condições de vida vai prosseguir.

Como o conceito de Nação, o de Família Angolana está em incessante construção histórica, cultural e social.

Terminamos com as palavras encorajadoras do Chefe de Estado, quando da cerimónia de abertura da 3ª Sessão Legislativa da 2ª Legislatura da Assembleia Nacional, a 15/10/2015: “Mesmo nos momentos mais difíceis, o povo angolano não se deixou vergar pelo desânimo, pelo desespero ou pelo pessimismo. Pelo contrário, foi precisamente nesses momentos que ele se ergueu, levantando a cabeça, ganhando forças e partindo firme e unido rumo à vitória”.

PortalMPLA/BC/AB

Veja todas as notícias