Ecclésia versus União Europeia: Não existem almoços grátis – Augusto de Sousa

A farsa de que o Governo angolano promove a censura é facilmente derrubada, quando a denúncia da tentativa de manipular a opinião pública tem como origem o representante máximo de um órgão privado da comunicação social e como agente um organismo europeu, habitual pregador da ética e dos bons costumes – 06.05.16.

 

Luanda, 06 MAIO 16 (6ª FEIRA) - Nas redes sociais e um pouco aqui e ali, a celeuma entre a Rádio Ecclésia de Angola e a União Europeia tem dominado o espaço, tanto para a defesa como para a acusação, em relação às recentes revelações do padre Quintino Kandandji, sobre um financiamento da, ou através da, União Europeia, para que sectores da imprensa angolana trabalhassem com o objectivo de desestabilizar as instituições do seu próprio país. De tudo o que tem sido comentado, uma coisa deve ser lembrada: não existem almoços grátis.

Entre as trocas de farpas, esta denúncia do padre é a única e relevante informação sobre a qual devemos dedicar o nosso precioso tempo, para debatermos o assunto. Antes de tudo, porque não estamos a falar de uma pessoa qualquer, sem credibilidade ou com problemas mentais.

Estamos a falar de um representante da Igreja Católica em actividade e director da Emissora Católica de Angola, que, mesmo sendo de carácter privado, é uma concessão pública de radiodifusão. Logo, uma pessoa que tem responsabilidades diante dos cidadãos e poderes constituídos do Estado.

A entrevista concedida pelo padre foi no período em que a UNESCO celebra o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa. Nada mais oportuno do que esta efeméride para a reflexão acerca dos papéis dos corruptores e corrompidos.

Oportuno, também, é lembrar que o poder económico não pode e não deve ser utilizado como ferramenta de patrocínio da comunicação social para a promoção de instabilidade nas políticas dos Estados.

O facto é agravado quando, como é o caso desta denúncia, o poder económico teria sido exercido por um organismo externo, o que – no mínimo – atenta contra a soberania angolana.

A União Europeia, entre outros argumentos de defesa, revelou que “o projecto da Rádio Ecclésia propunha-se a alcançar o objectivo geral de contribuir para que os cidadãos estejam melhor informados e o objectivo específico de reforçar a capacidade (por meio de capacitação pontual) das equipas diocesanas, para facilitar o processo de recolha, tratamento e envio de magazines para a Rádio Ecclésia em Luanda".

Este argumento não parece forte o suficiente para “desmentir” o padre, pois o conceito de “melhor-informados” da União Europeia pode não ser o mesmo defendido pela UNESCO ou pelo Estado angolano.

Em toda esta história, no entanto, o que fica certo é que os angolanos estarão ainda mais atentos aos conteúdos jornalísticos que lhes são oferecidos.

A farsa de que o Governo angolano promove a censura é facilmente derrubada, quando a denúncia da tentativa de manipular a opinião pública tem como origem o representante máximo de um órgão privado da comunicação social e como agente um organismo europeu, habitual pregador da ética e dos bons costumes.

Como dito acima, não existem almoços grátis. E não será a sociedade angolana quem irá pagar esta conta.

PortalMPLA/AS/AB

 

 

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