OPINIÃO: Coabitar com o ruído – Luís Fernando*

“É dia e noite com uma queixa que, além de irrelevante, não tem enquadramento legal” – 20.04.17.

 

Luanda, 20 ABRIL 17 (5ª FEIRA) - Na Europa das décadas de 30 e 40 do século XX, com a Alemanha em mãos dos nazis, ficou célebre o modo truculento como um dos colaboradores-chave de Adolf Hitler comunicava as teorias do regime.

Joseph Goebbels foi ministro da Propaganda da Alemanha fascista, entre 1933 até ao colapso Io regime, em 1945, período negro em que criou e levou à prática iniciativas perversas, como repetir mil vezes uma mentira, para se tornar (ou parecer) verdade.

Do desaparecimento de Hitler e seus comparsas já lá vão mais de 70 anos, mas é curiosa a prevalência, no Mundo do pós II Guerra Mundial, de laivos que lembram, inevitavelmente, o modo de actuação do homem da mentira repetida mil vezes.

O populismo em (re) ascensão na Europa e outros lugares da geografia planetária está carregado de slogans, imagens e frases que parecem encarnar um regresso em força dos fantasmas daqueles tempos críticos da Humanidade.

Noutros contextos e em ambiente de muito menor intensidade, mas ainda assim incómodos, lá estão os ares goebbelianos em franco ressurgimento, também.

No clima pré-eleitoral que Angola vive, não são poucos os elementos que nos fazem pensar na célebre teoria da mentira mil vezes, repetida até ser aceite como verdade.

Entre nós, cobrir de suspeição o processo eleitoral, associando-o a uma fraude de que se fala muitos anos antes de se convocarem eleições, é um desses ardilosos planos para se intoxicar a opinião pública, os cidadãos, os eleitores.

É um caminho pelo qual envereda uma porção de partidos fora do arco governativo e, pela maneira dedicada e intensa como agem, demonstram ser forças políticas que acham muita piada à ideia de vencer o eleitorado pelo cansaço, insinuando o mesmo anos a fio.

O novo modismo da Oposição - de uma certa franja dela, precisemos - é a contagem dos votos no município e a sua divulgação ao nível dessa divisão territorial.

Primeiro, foram exigências ao nível da comunicação social, em entrevistas, em depoimentos, cada vez que surgisse pela frente um microfone, um bloco de notas ou uma câmara de TV.

“Os votos têm de ser contados e divulgados no município, caso contrário... há fraude!”. Repetiram a cantilena dia e noite. E esticaram-se. Esticaram-se. Esticaram-se...

A um ponto dado do processo, a exigência passou a requerimento escrito e assinado: “Ou os votos são contados e divulgados no município... ou há fraude”.

A Comissão Nacional Eleitoral posicionou-se: “Não haverá tal contagem, porque a lei não contempla”.

Pensou-se que o assunto estaria arrumado ali, com a resposta pública e aparentemente definitiva da Comissão Nacional Eleitoral. Debalde! O ruído ressurgiu, com mais força até.

CASA-CE e UNITA fizeram e fazem da reclamação uma autêntica bandeira. Uma cruzada ao melhor estilo da Idade Média. Não há palco que fique por aproveitar. Já se sabe que o ruído vai chegar ao Conselho da República na próxima semana. Pelo menos se depender da vontade da turma da CASA…

É dia e noite com uma queixa que, além de irrelevante, não tem enquadramento legal. O fundamental não está nos votos que se contam, mas nos votos que se conquistam.

Na verdade, a esta altura a batalha dos políticos deveria ser por simpatias, pelo aumento exponencial de apoiantes, pelo trabalho de persuasão dos cidadãos, em torno de programas de governação credíveis. Mas não!

O que se vê é um permanente ataque aos caboucos do processo, abanando-o a ver se cai.

É impossível não recuar aos anos daquela Alemanha de doutrinas truculentas.

*Jornalista (In jornal O PAÍS de 20.04.17)

PortalMPLA/LF/AB

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