“Oposição não tem condições para ganhar eleições”

Luanda - O secretário do Bureau Político do MPLA para a Informação, camarada Rui Falcão Pinto de Andrade, concedeu, recentemente, uma entrevista ao “The Wall Street Journal”, dos EUA, na qual sublinhou que “o fantasma da fraude, ou de qualquer outra coisa, advém daqueles que sabem, antecipadamente, que não têm capacidade para ganhar as eleições” em Angola, a 31 de Agosto próximo.

Eis os respigos da entrevista:

The Wall Street Journal (WSJ): Angola é um país com um papel muito importante em África. Muitas pessoas e muitos países estão a seguir o que se passa aqui. De que forma é que o MPLA pode garantir que se vai ter um processo eleitoral livre, justo e transparente?
Rui Falcão (RF): Em primeiro lugar, o MPLA cumpre todas as regras constitucionais e legais. Segundo, o MPLA é uma força política muito forte e muito grande. O MPLA, hoje, tem mais de cinco milhões de militantes, membros efectivos do Partido. Se nós fizermos contas e podermos somar a esses militantes os amigos e simpatizantes, o número crescerá substancialmente.
Um Partido, como o MPLA, que tem, ele próprio, mais de 60 por cento de votos garantidos não tem necessidade de não cumprir regras. O fantasma da fraude, ou de qualquer outra coisa, advém daqueles que sabem, antecipadamente, que não têm capacidade para ganhar as eleições.
Quando eu lhe digo que o MPLA tem mais de cinco milhões de militantes, é preciso agregar a isso que esses cinco milhões de militantes estão organizados em cerca de 50 mil organizações de base. Não há um único espaço do território, onde haja cidadãos, que não haja uma estrutura do Partido.
Portanto, nós, o que vamos fazer e o que obrigamos os nossos militantes a fazer é cumprir as regras do jogo. O resto, só o povo vai decidir, com a convicção de que em Angola, neste momento, na conjuntura actual, a oposição não tem condições de ganhar eleições, não só pelo nosso nível de organização, pelo nível de organização do MPLA, mas, fundamentalmente, pelo nível de desorganização das principais forças políticas da oposição.
Aliás, vocês podem correr o país inteiro e não vão sentir qualquer acção militante, acção partidária, desses partidos, que falam só em Luanda.
O único espaço onde eles falam é em Luanda. Se você for ao Namibe, na província (!) – não estou a falar da cidade, mas da província – você não vai ver nenhuma bandeira da UNITA.
Quando nós ganharmos 5/0 (maioria absoluta) no Namibe é fraude?

WSJ: Como é que vê a questão das manifestações em Angola?
RF: É um direito constitucional. Os cidadãos têm o direito de expressar-se livremente, desde que não violem direitos de outros cidadãos. Não há motivos para ter preocupações.
O MPLA é muito claro no seu posicionamento, acerca disso. Aliás, nós próprios fazemos muitas manifestações e não haveria razão para nos preocuparmos com as dos outros.
Aqui, em França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, em toda a parte do Mundo, se não são cumpridas as regras, as instituições do Estado são obrigadas a fazê-las cumprir.
Se houver violação do respeito pelo próximo, se houver depredação de bens, públicos ou privados, a Polícia tem que agir aqui, como age em qualquer parte do Mundo.
E é preciso dizer que, mesmo nós, quando promovemos manifestações, somos acompanhados pela Polícia, exactamente para impedir que haja violação de regras. E nós, porque sempre respeitámos as regras, nunca tivemos confrontos com a Polícia.
E sabe qual é a diferença, nós não fazemos manifestações com 60 pessoas. Fazemos manifestações com mais de 100 (cem) mil pessoas. Para manter a ordem, somos nós próprios os primeiros a dar o exemplo.
O MPLA não tem este tipo de preocupações. E é isso que nos faz um Partido cada vez maior e cada vez mais forte, porque as pessoas compreendem que, para além dos índices de governação que temos, nós governamos para o povo.

WSJ: Numa manifestação, terão existido ataques violentos contra alguns dos manifestantes. A questão que se coloca é: na sequência disso, houve alguma condenação, por parte do MPLA e, se terá havido, como é que o MPLA se pronunciou?
RF: A única coisa em que nós nos pronunciámos é com a necessidade de se cumprir com a lei e os direitos das pessoas. E, aqui, é preciso discernir duas coisas: Uma coisa é acusar-se de ter feito algo, outra coisa é provar que isso aconteceu.
E o exemplo é só este: Ouça as declarações dos organizadores daquela manifestação, antes do dia que houve este problema. Estão na net. E veja se aquelas pessoas podem representar alguém. Analise o nível daquelas pessoas. Quando grupos organizados de lúmpenes se pretendem manifestar e há políticos que, arriscando, querem dar a cara sujeitam-se a tudo. Em política não pode valer tudo.
Se eu, como político, baixar o nível e me juntar ao lumpenato, corro riscos, porque a briga entre eles apanha quem está no meio. Portanto, nós não nos metemos nisso.
Eles que expliquem bem o que estiveram lá a fazer. É só ver quantos políticos de renome estiveram lá. Esteve lá o secretário-geral do Bloco Democrático. Pergunte-se porquê que o presidente não esteve lá? Porquê é que os vice-presidentes também não? Eles próprios não se revêm naquele tipo de comportamento.

WSJ: Eu, se calhar, não entendo…
RF: Você acredita que os polícias é que foram para lá, com ferros e com paus? A Polícia em Angola, tal como a Polícia sul-africana, tem cães, tem meios lacrimogénios. Não vai recorrer a paus e ferros. Um dia, essas verdades vêm ao de cima.

WSJ: Será que em manifestações públicas, a Polícia é a melhor solução, para solucionar problemas?
RF: O problema é que, perante uma briga dessas, a Polícia tem que aparecer para meter ordem. Não vai para perguntar o nome, nem quem é a pessoa. Aliás, a só ver a televisão. No Mundo, todos os dias, as polícias agem no sentido de repor a ordem. O grande problema é que há, no subconsciente de algumas pessoas, outro tipo de comportamentos que não são ditos.
Quando a Polícia na Europa age para repor a legalidade é Democracia. Há dias, em Washington, quando a Polícia teve que impor ordem e prendeu algumas pessoas era Democracia. Aqui em Angola, quando a Polícia age nos mesmos limites é violação dos direitos humanos.
Isso é racismo. Isso tem nome. E temos que começar a dizer as coisas como elas são. Por isso é que já se fala da recolonização de África. Nós próprios, os angolanos, é que temos que nós habituar a respeitar as instituições.

WSJ: Recolonização de África? O que é que isso quer dizer?
RF: O que está a acontecer. Por isso que a Europa invade países africanos, os Estados Unidos invadem, porque nós não temos orgulho nas nossas próprias instituições. O exemplo tem de partir de nós próprios. Somos nós que temos que cumprir as leis, as regras, para, com orgulho, defendermos a independência que conquistámos.

WSJ: Quer, com isso, dizer que há países estrangeiros por detrás dessas manifestações?
RF: Eu não disse isso. Disse, apenas, que se nós não nós respeitarmos a nós próprios, estamos a abrir a porta para que alguém nos venha por na ordem.

WSJ: Falando de nova colonização, falando sobre aqueles que vêm de fora, eu passei algum tempo na China e eu vejo mais chineses em Angola do que eu vi na China. Tenho uma questão que é a de saber se o MPLA está preocupado com o problema de alguns investimentos da China em Angola, como, por exemplo, o derrube do Hospital Central de Luanda.
RF: Antes de falar disso, vamos falar de outra coisa. Quando nós estávamos em guerra, quando morriam mil angolanos por dia, a Comunidade Internacional tinha aqui dezenas de ONG’s a prometerem que, tão-logo se conseguisse a paz, iriam apoiar a reconstrução. Nessa altura, muitas dessas organizações tratavam da desminagem, iriam reconstruir pontes, iriam ajudar-nos no desenvolvimento agrícola…
Como não foi a Comunidade Internacional que conquistou a paz em Angola, fomos nós próprios, essa Comunidade Internacional virou-nos às costas. E muitas dessas ONG’s começaram a tratar da luta contra a SIDA e outras coisas, que nada têm a ver com a reconstrução nacional.
Nessas circunstâncias, se você não tiver comida em casa e alguém lhe aparecer e dizer: “Está aqui dinheiro para ires às compras e pagas-me em 20 anos”, você recebe o dinheiro ou não? E continua a morrer de fome?
O problema aqui não é o chines, o americano, o português ou o francês. O problema é que nós tínhamos que encontrar solução para a melhoria da qualidade de vida do nosso povo. E foi graças a esse apoio chinês que nós, nos 10 anos de paz, somos dos países que mais cresceram no Mundo.
Então, o problema é um hospital, onde houve um problema, ou as milhares de boas obras que os chineses nos têm ajudado a fazer neste país?
O meu problema não é quantas crianças estão fora do sistema de ensino. O meu problema é quantos eu posso pôr no sistema. E isso, temos que ser nós a fazer. Os chineses não nos dão nada. Nós pagamos e pagamos bem. Só que, em 10 anos, temos a Angola que temos hoje.
Infelizmente (dirigindo-se ao jornalista americano), é a primeira vez que vem a Luanda. Mas pergunte aos seus colegas que estiveram aqui há três anos se hoje Luanda é a mesma cidade?
E uma coisa que deixou escapar e que eu não posso esquecer. Os chineses aqui não colonizam ninguém. São empresas, como são as americanas, que estão aqui no ramo dos petróleos, como as empresas francesas ou empresas italianas. Eles vieram, exactamente, nas mesmas circunstâncias e cumprem as mesmas regras laborais. Aqui, quando terminam a sua obra fazem as malas e regressam.
Temos muito orgulho da cooperação que fazemos com os chineses, assim como nos orgulhamos das excelentes relações que temos com os Estados Unidos da América, hoje.
E vou dizer-lhe uma coisa, que nunca disse numa entrevista: Nós conquistámos a independência política em 11 de Novembro de 1975. Vamos conquistar a independência económica no ano de 2025. E somos dos poucos países africanos que o pode dizer.

WSJ: Como é que define a independência económica?
RF: A nossa liberdade de gerir os recursos naturais por motu próprio.

WSJ: Estará, de alguma forma, preocupado com o volume da dívida que Angola pode acarretar da sua relação com a China?
RF: Não. É internacionalmente reconhecido que nós temos a nossa dívida externa controlada. E temos liquidez para suportar a dívida externa. Basta ver os últimos relatórios do Banco Mundial e do FMI.

WSJ: O Fundo Monetário Internacional, num dos seus mais recentes relatórios, dizia que há cerca de 32 biliões de dólares fora das contas da SONANGOL. Poderia saber para onde foram parar? O que é que o Partido está a fazer, no sentido de poder reaver esse dinheiro? Realmente, onde é que estará esse dinheiro?
RF: Eu já deixei de ler estórias de quadradinhos, desde miúdo. Alguém acredita que seja possível esconder 32 mil milhões de dólares? O problema fundamental é que já não têm por onde nos pegar.
As nossas contas públicas são cada vez mais transparentes. Se entrar no Site do Ministério das Finanças, está lá a gestão orçamental. Se entrar no Site da SONANGOL, estão lá os rankings diários de produção e de venda. Se entrar no do Banco Nacional de Angola, estão lá as contas do Tesouro de Angola. O resto é má-fé.

WSJ: Acha que o Fundo Monetário Internacional está a tentar prejudicar a imagem de Angola?
RF: Já o fez várias vezes. Inclusive, já pediu desculpas públicas. Portanto, não seria caso inédito.
Não me preguntou, mas vou falar da corrupção.

WSJ: Eu estava para perguntar…
RF: Temos que analisar o fenómeno da corrupção na verdadeira conjuntura nacional. Tivemos 40 anos de guerra, sangrenta, onde se perderam os valores fundamentais e o respeito, até, pela vida humana.
É sabido por todos nós, é da história, que as grandes riquezas fizeram-se em tempo de guerra. Nós não fomos uma excepção. Mas, para nós, o importante não é a corrupção, porque reconhecemos que ela existe. O que é relevante é o que estamos a fazer. É criar condições para combatê-la de forma enérgica.
Hoje, já não se gerem os bens públicos, não se gere dinheiro do Estado como se geria em 2002. Já há centenas de responsáveis, aos vários níveis, incluindo ao mais alto nível, a prestarem contas no tribunal. Alguns já foram presos. Portanto, é um processo. O que é importante é que temos rumo.

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