Alice Dombolo, a surpresa no Março-Mulher

Alice

Artigo de opinião de Domingas Damião, jurista e colaboradora da OMA.

Luanda, 12/03/13 - Chegou serena à entrada do mês da Mulher, surpreendeu tudo e todos e, num leve gesto, acenou-nos, dizendo adeus, vou agora atender ao chamado do Senhor, mas estarei sempre presente nos vossos corações.

Assim se despediu a camarada Alice Paulina Dombolo Chivaca, a psicóloga e dirigente que, exibindo uma estatura baixa, carregava nela a fragrância do melhor perfume de todos os tempos, cujo odor atraiu homens e mulheres que, com a devida reverência, vergaram-se às qualidades de uma mulher sem mancha.

Com o olhar incrédulo, pernas bambas e sem palavras, recebíamos a inesperada notícia que rompeu a nossa estabilidade psicológica: Morreu Alice Dombolo, a mulher de sete ofícios, uma sagitariana que destinou 52 anos da sua vida ao engrandecimento do seu país, 23 dos quais deu-me o privilégio de com ela privar, trocarmos impressões, conselhos e, até, dividirmos preocupações.

Alice, nome de origem grega que designa uma mulher que não conhece a mentira, verdadeira, justa, defensora, sublime e protectora, adjectivos sempre bem presentes na conduta da nossa querida camarada. Íntegra e digna de lhe seguirmos as pegadas.

Foi o ano de 1974 que a conduziu para as passerelles da política e aí fez fama, subindo degrau a degrau, para desbravar o mistério de um caminho que, desde logo, decidiu trilhar.

E assim foi durante cerca de 39 anos, plantando e dando a colher os frutos de uma jornada que reuniu à sua volta pessoas que, pelos seus ensinamentos, tomaram consciência que o país precisa de todos e que a discriminação da mulher é incabível no texto constitucional.

Elas até podem inspirar os grandes pintores, os grandes escritores de textos literários, os músicos a criarem canções que se tornam verdadeiros hinos, mas o percurso da malograda desenhou o perfil da mulher trabalhadora, dedicada, participativa, capaz de contribuir, de algum modo, para a evolução dos tempos e da sociedade, mas, também, a esposa, a mãe e a avó extremosa.

Conquistou, por mérito próprio, o segundo maior cargo na Organização da Mulher Angolana (OMA), foi chamada a integrar o Comité Central do seu Partido (o MPLA) e foi eleita deputada à Assembleia Nacional.

Atrevemo-nos, mesmo, a dizer que o despontar da revolução francesa, 1789, onde o papel da mulher começou a evidenciar-se, inseminava já esta mulher como percursora deste caminho, até à eternidade.

Não é fácil descrever uma história que envolve a actuação fecunda de uma mulher que não olhava a complexidade dos problemas e não media esforços para efectivar os objectivos traçados para a conquista da paz e do progresso.

Não era com feminilidade que assinava a sua pronta participação nas tarefas que lhe estavam incumbidas, mas era com o toque feminino que engrandecia os seus gestos e os seus feitos. Foi, indiscutivelmente, a mensageira de que a estima vale mais do que a celebridade, a consideração mais do que a fama e a honra mais do que a glória.

Era, de facto, uma mulher de luxo, pela beleza interior, pela determinação, pelo respeito ao próximo, pelo ombro amigo que repartia incondicionalmente, pelo trato fácil, que viu recompensada na belíssima família que construiu, enaltecida hoje com a presença dos netos, que, com estridente inocência, colocam-nos num inquisitório para esclarecer o súbito desaparecimento físico da nossa rainha.

Com esquivas e escusas, abrandamos a curiosidade das princesas, dizendo que a avó estava no Céu e que, de lá, iria perceber todas as maldades do Mundo e que era hora, então, de termos um comportamento digno da sua personalidade. E não haverá, certamente, nenhuma mentira no que dissemos. Era, de facto, uma filha de Deus e um exemplo a ser seguido por todos.

A mulher é um ser que, na interpretação filosófica, representa fonte de vida e, portanto, símbolo da família, um ser criado por Deus, para ser feliz. E assim foi a camarada Alice Dombolo, uma mulher que, no calor do cumprimento do dever, distribuía risos e sorrisos, que alimentavam o estímulo e o ego de quem à sua volta estivesse. Uma verdadeira patriota!

Os cânticos entoados pelas mulheres que envergavam o uniforme da Organização da Mulher Angolana exaltavam o valor da sua firmeza e a imortalidade dos seus ensinamentos. Uma perda insuprível.

Puxa vida! Que sufoco! Há momentos em que o Mundo desaba sobre nós. Percebo, cada vez mais, que não consigo expressar o que me vai na alma. Hoje confesso-me certa de que o incomensurável torna-nos impotentes para medir, com exactidão. Seja o que for, sabemos, apenas, que é grande, que é tão grande que não o podemos quantificar.

Conforta-me o facto de sabermos, com absoluta certeza, que a camarada Alice continuará entre nós, não só para bebermos o manancial de conhecimentos que nos legou, mas, também, para amenizar a saudade que teima em abraçar-nos e nos deixa inconformados e vulneráveis. Afinal, é a certeza do nascer do sol, quotidianamente, que nos encoraja a enfrentar a escuridão.

A imortalidade das suas sábias palavras dar-nos-ão resposta, a todos os enigmas que a vida nos poderá reservar. É com esta certeza que me vergo à sua memória e enviarei para o palco de Deus, onde, seguramente, estará repousando, todas as minhas súplicas e orações, na certeza de que o sol amanhã brilhe mais forte, o céu esteja bastante enfeitado de estrelas e que a vida abra um sorriso sincero para todos nós.