As “makas” da luz e água em Luanda

ARTIGOquaresma


Artigo de opinião de Paulo Quaresma, especialista em Relações Internacionais.

 

Luanda, 09/10 – “Muito se tem dito acerca dos problemas de abastecimento de água e luz à cidade de Luanda. Nos mais variados jornais, que existem à disposição dos cidadãos angolanos, entre privados e públicos, muito se escreve, ou mesmo na internet, com ou sem interesses específicos políticos ligados.

Este assunto tem que ser analisado de uma forma profunda e especial, tendo em conta que é de uma importância vital para os luandenses. A água é fundamental para se ter uma qualidade de vida digna desse nome e sem luz é complicado ter essa mesma qualidade de vida.

Quando se fala de água e luz, não se pode raciocinar como se estivéssemos a falar de um outro assunto qualquer. Água e luz são assuntos de elevadíssima importância para a vida dos cidadãos e devem ser tratados como tal.

Infelizmente não é isso que se vê um pouco pelos jornais que existem à venda para os cidadãos, o que, directamente, deixa os mesmos mal informados sobre o que realmente se passa, quanto a falta destes dois bens indispensáveis às suas vidas.

Começando a olhar para esta questão de uma forma organizada e indo ao cerne da mesma, tentando atacar o problema de fundo que está relacionado com todos estes cortes que se verificam por toda a cidade de Luanda, nunca nos podemos esquecer que, originalmente, a nossa Luanda foi construída para ter um número máximo de 600 mil habitantes.

As ruas, o tipo de habitações, os sistemas de fornecimento de água e luz e muitas outras questões foram construídos para suprir as necessidades deste número de habitantes. Como sabemos, hoje em dia temos e há já quem diga para lá de cinco milhões de habitantes.

Luanda, portanto, cresceu de uma forma exponencial e não existiu, por culpa da guerra que nos foi imposta, infelizmente, uma dinâmica que pudesse acompanhar este desenvolvimento humano, com construções e obras que suprissem as necessidades dos cidadãos de uma forma digna. É preciso que o angolano saiba disto e reflicta nesta direcção.

A juntar a estes problemas inevitáveis, a própria guerra imposta fez com que muita gente, fugidos de outras províncias por razões de segurança, fosse para Luanda e acabasse por aí permanecer. Isto foi, também, um processo inevitável.

Quais as consequências directas desse crescimento astronómico populacional que se registou na capital do país? A delinquência, as construções anárquicas, os engarrafamentos, a poluição, entre outros e, também, claro está, a falta de água e de luz eléctrica.

Outra questão que tem que ser analisada ao pormenor é que a nossa cidade de Luanda, por baixo do seu tapete asfáltico, tem tubagem e um sistema de esgotos que deixam muito a desejar em termos de modernidade, estando muito por esse material obsoleto.

Eu não imagino o que seria abrir esta cidade, esburacar a mesma, no verdadeiro sentido, para poder-se substituir toda a tubagem que está obsoleta e que deve ser substituída por nova. O caos seria gigante. Os engarrafamentos seriam insuportáveis. Muitas habitações teriam que ser literalmente partidas. Há quem diga que é impensável essa situação.

Falar, portanto, de problemas de água e da luz em Luanda não é tarefa fácil. Não se trata, apenas, de ter dinheiro disponível. Não se trata de ter governantes competentes, incompetentes ou não. É um problema, antes de tudo, social. Só o tempo poderá ajudar a suprir essas dificuldades. Aos poucos, reconstruindo os sistemas, substituindo as condutas, fazendo novas. Só assim poderemos ter, no futuro, um abastecimento de água e luz adequados e que façam orgulhar o angolano.

Não podemos, simplesmente, culpar os governantes e os ministros, porque não foram eles que criaram as condições que hoje temos em Luanda. Eles tentam, de forma que considero quase heróica, diminuir esses efeitos, trabalhando, noite e dia, para que a população de Luanda tenha, a cada dia que passa, uma qualidade de vida melhor e mais digna.

Ainda em relação às “makas” de água e luz em Luanda, outro “problema que estamos com ele” é a chuva. A mãe-natureza trabalha por si e não depende do homem para brindar-nos com chuva nem com qualquer outra coisa.

Angola, infelizmente, está a ser afectada por pouca chuva. Os níveis de água nos rios é baixo e isso prejudica directamente o fornecimento eficiente de energia e de água às cidades. Mas, como Deus existe e é bom, esta situação vai ser invertida nos próximos tempos, segundo as previsões no INAMET (Instituto nacional de Meteorologia).

Nestes termos, é muito errado, simplesmente, apontar o dedo aos governantes, porque não chove. Não são eles que fazem chover.

Antes de apontarmos o dedo a quem quer que seja, temos que analisar as situações de uma forma coerente e inteligente. Só assim poderemos entender o que realmente se passa e como podemos ultrapassar os problemas no nosso querido país.

Há, portanto, que haver, acima de tudo, esperança e em vez de criticarmos,  de forma desajustada, os nossos governantes, devemos, antes, apoiar os mesmos e, quiçá, dar as nossas contribuições para que os mesmos consigam ultrapassar todos estes problemas, em nome de todos nós, por todos nós.

Neste país, que foi dizimado por uma guerra sangrenta, existe muita coisa a ser feita ao mesmo tempo. Na saúde, no ensino, nas telecomunicações, na agricultura, nas estradas, enfim, em tudo e, também, na água e na luz.

Há 20 anos ninguém poderia imaginar que hoje, em 2012, o país tivesse atingido estes ganhos: tantas estradas, tantas escolas, tantos hospitais. Mas, temos. Conseguimos.

Na água e na luz também vamos conseguir, com trabalho, suor e dedicação. Não é de um dia para o outro, mas com espírito de sacrifício e paciência lá chegaremos”.