Nas investiduras estivemos lá


Escritor Arnaldo Santos, neste artigo de opinião, inserto na edição de 02 de Outubro de 2012, do Jornal de Angola: “Gostaria, também, de poder admitir que se arquivará, para nunca mais ser reavivado, esse passado em que os angolanos foram obrigados a baterem-se entre si e quase se autodestruíram”.

Luanda, 02/10 – “E para que não houvesse mais dúvidas, também desta vez, todos os que puderam estiveram lá, numa nova festa da Dipanda, para dar a cara e demonstrarem que não são nenhuma fraude.

Nesta circunstância, transcorria mais um momento singular da História do nosso país. E, assim, todos puderam observar, ao vivo, a cerimónia de investidura de José Eduardo dos Santos, como Presidente da República de Angola, com os rostos, por fim, desanuviados de uma velha tensão.

Suponho que será o epílogo definitivo do longo processo de conjunturas malévolas, gizado desde a fundação do nosso país por potências internacionais com interesses hegemónicos.

Gostaria, também, de poder admitir que se arquivará, para nunca mais ser reavivado, esse passado em que os angolanos foram obrigados a baterem-se entre si e quase se autodestruíram.

Na ocasião, impingiam princípios em que o do direito à liberdade pela conquista da independência só podia ser válido para eles próprios e outros que, depois, se consagraram como universais.

Decerto que, a partir das eleições de 31 de Agosto de 2012, não mais serão com esses fundamentos que se atentará contra a paz e a estabilidade no nosso país.

Porém, ao invés do 11 de Novembro de 1975, desta vez, na reinvestidura de José Eduardo dos Santos, a música foi outra. É verdade que, também, se ouviram tiros de canhão, mas esses não foram disparados por um exército invasor.

Seguiram-se ao Hino Nacional, entoado por um coro de tenores; eram salvas que se ajuntavam às palmas e a gritos esfuziantes e ao rufar dos tambores de uma banda militar que acompanhava o desfile das FAA, à luz do sol e sob um céu em que as gaivotas se cruzavam, lenta e calmamente.

A música foi outra, na Praça do Memorial de Agostinho Neto. Gente feliz e sem mais penas que de viver o acontecimento solene revia-se entre si e mediam-se uns nos outros.

Eu mesmo reatei lembranças e a recordação da noite da proclamação, em 11 de Novembro, foi uma das que me surgiram neste tempo da nossa nova Dipanda.

Revi velhos camaradas, ali bem perto de mim, como o comandante Kinjinji, das bases do Marçal e do Rangel e o meu confrade de letras, o mais-velho Mendes e suspeito que descobriria outros mais entre a multidão se meus olhos me permitissem, por desconfiar das suas presenças, ao ouvir entoar baixinho velhas músicas da nossa resistência, ao compasso da banda militar.

Acontecimentos tão afastados, mas, afinal, tão próximos, pensei. Agora percebo melhor por que nos queriam impedir de viver esse momento único e singular na vida dos angolanos.

AUÁ! Vamos s’embora, esqueçamos o que urdiram contra o nosso povo e continuemos no nosso rumo para concretizar o programa ratificado pelos eleitores; um programa a que, no final da cerimónia, o Presidente José Eduardo dos Santos jurou servir com lealdade, para a criação de uma sociedade de inclusão.

As palavras humanizam as cerimónias e, por certo, que muitas das que se proferiram nesse acto ficaram gravadas também nas mentes e outras, porventura, em muitos corações. E porque com as razões do coração cada um faz o que quer, eu mesmo concedi-me a veleidade de aspirar a uma sociedade que, para ser inclusiva, não pode ser protelada para as calendas dos fins dos anos de 2025, que é quando se prevê a erradicação do analfabetismo.

Antes disso, a eliminação do apartheid existente, entre os poucos que vivem no campo iluminado da Leitura e os outros que não sabem sequer ler e muito menos imaginar o mundo da Leitura, não será um desafio que esteja acima da capacidade dos angolanos e em especial da sua juventude. O nosso passado de luta diz-me que ela pode ir muito além de promover shows”.