“O segredo desta paz está na compreensão entre nós”

CABINDA, 20.08.12 - DISCURSO DO CAMARADA JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS, NA CAMPANHA ELEITORAL ÀS ELEIÇÕES GERAIS DE 2012

“Caros amigos,
Estimados compatriotas!


Quando os guerrilheiros do MPLA se instalaram em Cabinda e na fronteira com o Congo, nos anos 60, viviam como irmãos. Eles não eram só naturais de Cabinda. A maioria era de outras províncias do nosso país e o seu objectivo era só um: libertar a nossa terra, de Cabinda ao Cunene, do colonialismo e alcançar a independência nacional de Angola.

A luta foi difícil e longa, mas triunfou. Muitos filhos valentes e patriotas exemplares desta província de Cabinda deram a sua contribuição: o general Pedalé, de Cabanango, o general Kimba e o engenheiro Tendele Maurício, ambos do Malungo, o Roque Tchiendo e muitos mais.

Outros, como o comandante Nicolau Gomes Spencer e a doutora Maria Mambo Café, daqui foram transferidos para a província do Moxico, onde ajudaram a organizar e a desenvolver a luta guerrilheira.

Destes camaradas, só a camarada Maria Mambo Café, da Direcção do MPLA, é deputada, é que ainda está entre nós, mas todos eles merecem a nossa admiração e homenagem.

Seguindo o exemplo de Deolinda Rodrigues e de Maria Mambo Café, outras mulheres da nossa juventude se juntaram e participaram, aqui, na guerrilha, como a doutora Ruth Mendes, deputada, a doutora Catarina Pereira e a doutora Francisca Yombo, que realizam várias actividades partidárias.

Nessa altura, não sei onde é que estavam aqueles que hoje só falam em divisão, separação e tribalismo. O povo de Cabinda, particularmente as populações do Maiombe, sempre tratou os guerrilheiros do MPLA como seus filhos, como seus soldados, que lutavam pela liberdade de todos os angolanos, de Cabinda ao Cunene. Por isso é que a luta de libertação avançou e se consolidou.

Nos anos 70, o Doutor Agostinho Neto, líder do Movimento, foi a Sanda Massala, zona libertada, visitar os guerrilheiros nas linhas mais distantes.

Eu e o comandante Pedalé acompanhámos o Doutor Neto, nessa visita. Foi por causa destes progressos que, logo após a assinatura do acordo de cessar-fogo entre o MPLA e os representantes do Estado português, as unidades militares portuguesas, sedeadas na província de Cabinda, largaram as suas posições e concentraram-se, em Novembro de 1974, na cidade de Cabinda, antes mesmo dos Acordos do Alvor, sobre a independência.

As forças militares do MPLA assumiram o controlo dos seus quartéis e o MPLA assumiu, praticamente, o controlo da cidade de Cabinda, com os comandantes Pedalé, Nzaji e Ndozi, à cabeça.

Em nome da Direcção superior do Movimento, eu passei a fazer a Coordenação Política e Administrativa e a Supervisão da nossa instalação no interior do país, na região Norte, não a partir de Brazzaville, mas da cidade de Cabinda.

É por isso que o MPLA diz que Cabinda foi e é o seu laboratório. Aqui se começou a formação dos guerrilheiros, que foram para outras regiões e a formação política dos militantes, que evoluiu para a criação de Centros de Instrução Revolucionária (CIR).

Aqui começou, também, o contacto e a absorção dos serviços de Administração do Estado e a sua transferência para os quadros do MPLA.

Aqui aprendemos, também, a conduzir a guerra de baixa intensidade, até alcançar a estabilidade e a paz relativa, que temos hoje em toda a província.

O segredo desta paz está no diálogo, na compreensão entre nós, os filhos desta imensa e bela terra e na separação dos nossos interesses dos interesses e ambições de forças estrangeiras. É preciso preservar a paz.

Nos poucos anos de paz que vivemos, já conseguimos reconstruir as estradas e pontes nas vias principais e estamos a abrir as vias secundárias e terciárias, para garantir a livre circulação a todas as comunas, povoações ou bualas.

Podemos transformar Cabinda no nosso laboratório de combate à fome e à pobreza e libertar a província toda deste problema.

Isto significa criar as condições para que cada família tenha casa própria, energia e água potável, saneamento, acesso à educação e formação profissional para as crianças e jovens, acesso aos cuidados de saúde e aos meios de trabalho, para produzir bens para o seu sustento.

Isto implica a participação de todos e uma boa parceria entre o Governo, a sociedade civil e as autoridades tradicionais. Isto implica, também, uma boa gestão e aplicação dos recursos financeiros, humanos e técnicos.

O Ministério das Finanças alterou a metodologia de gestão dos 10 por cento da receita petrolífera destinada a esta província e os quadros aqui não concordam. Vamos estudar, com o Governo da província, a revisão dessa metodologia, para restabelecer a autonomia de gestão, pela província, destes recursos.

Nesta província começámos, antes das outras, a aprovação e execução de programas de desenvolvimento, mas os resultados ainda não são satisfatórios.

O MPLA vai recomendar ao Executivo a discussão do próximo plano de desenvolvimento económico e social desta província com os parceiros sociais, com os representantes da sociedade e com as autoridades tradicionais.

Tomámos já boa conta da contribuição, que é bem-vinda, que os jovens empresários locais pretendem dar, para enriquecer esse plano.

Caros compatriotas!

A melhor forma de homenagearmos os nossos heróis é desenvolver, cada vez mais, a província e o país, no seu todo. É resolver os problemas relacionados com a pobreza, a fome, o analfabetismo e o subdesenvolvimento.

Para tal, é indispensável consolidar as condições de segurança, de paz e de tranquilidade e do respeito pelas instituições do Estado e pela ordem pública.

Os feitos realizados em todo o país, desde 2002, demonstram que, com tempo e trabalho e num clima de paz, tudo se torna possível e realizável. A prova disso são os avanços já registados nesta província, nos últimos anos, em todos os domínios da vida.

No Dinge, um grande projecto agro-industrial está em marcha e vai fazer com que a província possa dedicar-se à produção, em larga escala, de milho, carne bovina e suína, ovos, frangos, óleo de palma e outros produtos agrícolas, para abastecer o mercado interno.

Além da pecuária, esse projecto inclui a produção de biocombustíveis e vai revitalizar a produção e comercialização do óleo de palma e desenvolver sistemas de produção e comercialização das culturas da mandioca, banana e batata-doce.

A aposta no ensino superior é outro dado relevante no desenvolvimento da província, funcionando aqui, além da universidade pública, outras duas universidades.

Podemos, assim, dizer que Cabinda se afirma cada vez mais como parte integrante do todo nacional e beneficia, por igual, das conquistas que se vão materializando em todo país.

O pólo industrial de Fútila vai colocar Cabinda na vanguarda da produção industrial. A nova ponte-cais de Cabinda, que estará, de novo, operacional num curto espaço de tempo permitirá acelerar a construção de um porto de águas profundas, realizando, assim, uma das grandes aspirações da população.

Como disse antes, lutámos todos juntos, sem distinção de tribo, de raça, de credo religioso ou de nível cultural, para alcançar a independência nacional, que todos festejamos no dia 11 de Novembro.

A palavra de ordem ‘De Cabinda ao Cunene, um só povo, uma só Nação’ não é, portanto, uma palavra vã e traduz essa realidade incontornável. Cabinda é parte de Angola, desde que os portugueses ocuparam toda a costa do Loango até acima de Ponta Negra. São, pelos menos, cinco séculos de pertença à mesma entidade geopolítica.

E não são interesses estranhos ao nosso povo que poderão fazer reverter o contributo dado pela população de Cabinda à grande causa da Nação angolana una e indivisível.

Por essa razão, acreditamos que, no próximo dia 31 de Agosto, a população de Cabinda votará a favor da paz e da continuidade do MPLA no Governo, para ajudar Angola a crescer mais e a distribuir melhor.

Discurso (20/08) do Arquitecto da Paz, em comício popular em Cabinda